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domingo, julho 13, 2003

Fazendo de Attenborough em Paris 

Ontem tive o dia todo para mim. Resolvi pegar no meu arbusto virtual e vaguear sozinho pela cidade a estudar a vida selvagem. A experiência veio a revelar-se de profundo interesse antropológico. Tudo começou no super do meu bairro, onde pude observar de perto dois espécimes de

Tugas Descolorados. Um dos fenómenos mais evidentes nas grandes metrópoles mundiais é a maneira como as camadas jovens da comunidade nipónica são obcecadas pela imagem; talvez por serem todos parecidos uns com os outros aos olhos ocidentais, fazem tudo o possível para se diferenciarem. É essa a origem do estereótipo do Ponga Descolorado (termo que eu prefiro ao mais tradicional Japa Descolorado usado pela minha flete-meite). Sendo paris um habitat privilegiado de nidificação para muitas espécies, o recurso a meios artificiais de atrair a fémea é levado aqui ao extremo e 90% dos jovens machos pintam o cabelo de loiro, aquirindo o estatuto de Ponga Descolorado.
Mais estranho é o fenómeno do Tuga Descolorado. Já todos conhecemos a perversidade do património genético português que leva a que a partir dos 40 os cabelos das senhoras em vez de começarem a ficar brancos comecem a ficar loiros. Em paris mantém-se a tendência mas generaliza-se a ambos os sexos, o que através dos meus olhos polarizados pelo preconceito provoca um efeito no mínimo bizarro. Ver o Tuga cinquentão - baixote, barrigudo, com as medalhas de fátima a espreitar por entre os pêlos do peito e ar de quem bate na mulher - com o cabelo de um loiro dolorosamente falso é coisa que me deprime profundamente. É que este senhor não quer saber nada de moda, como o comprova a modéstia da indumentária; o que ele quer é parecer mais nórdico, cavar um fosso que o separe do imigrante magrebino, que ele despreza como o desprezam a ele certos franceses. É triste a maneira patética como falha nesta tentativa, mas mais triste é saber o que a motiva.

Depois de reabastecer o mini-bar que me serve de frigorífico, fui ao Louvre ver uma exposição temporária de desenhos e manuscritos do

Leonardo da Vinci. Choca contactar assim com a intimidade de um génio. Produziu constantemente: "Antes a morte que a lassidão", aparece rabiscado num dos milhares de folhas entre um estudo sobre a difracção da luz e outro descrevendo a reacção de um pássaro em vôo a uma turbulência inesperada. Anatomia, fisionomia, mecânica, dinâmica de fluídos, arquitectura, a luz, a cor, a botânica, a atmosfera, sempre escrevendo da direita para a esquerda, por que lhe dava mais jeito e porque um génio não precisa de se agarrar às convenções dos outros. Cada esquema técnico é único e preciso, não se vislumbra um processo de tentativa e erro. Ele está a falar da turbulência das águas e de repente vira-se a página e aparecem 4 ou 5 máquinas de arremesso de projécteis; do género "oh leonardo, vou ali tomar uma bica, entretanto faz-me aí uma geringonça pra eu pôr o duque de Mântua na ordem que o gajo já anda a levantar muito a gripa". Cada elemento da sua pintura é ancorado numa pesquisa obsessiva, mas quando estamos perante ela isso tudo desaparece e fica a comoção, o encanto, a Arte.
Depois da exposição fui directo para a sala de consulta informática dos cadernos, onde partilhei o espaço com meia dúzia de estudantes, como já esperava, mas também uns três ou quatro pais com as criancinhas em transe e uma velhota que devia ter quase noventa anos a escrever folhas atrás de folhas numa letra minúscula de quem se habituou a poupar papel durante a guerra.
Ao ver uma menina de 7 anos fascinada com as notas que um intelectual barbudo escreveu há 500 anos ou uma velhota com aquela sede de conhecimento e capacidade de trabalho quando não lhe resta muito tempo de vida, uma pessoa volta a acreditar na Humanidade.

Com o intuito de preparar o estômago e o espírito para mais uma noitada na Favela Chic, decidi ir assistir a um concerto de música oriental num café do 20ème enquanto ingeria um couscous e meia de médoc, mas fui desviado desses planos pelo Ahfid Bouricha com a sua trotinete, que me interpelou nos seguintes termos:

Monsieur, je suis perdu. O 20 é um bairro no leste de Paris. É o bairro mais pobre mas tem uma actividade cultural muito intensa e os restaurantes mais baratos, ou melhor, menos caros da cidade. O Ahfid só sabia o nome, a idade (5 anos), que o pai morava muito longe e que a irmã grande o tinha largado ao pé do Macdo (McDonald´s em francês). Fomos lá então ao Macdo onde o segurança só se preocupou em garantir que o puto não roubava nada. No café marroquino ao lado tivemos mais sorte. O dono do estaminé lá descobriu de onde era o puto ("mas tu és argelino, marroquino ou tunisino?" - "não sei" - "então e vais de férias a algum lado" - "vou" - "onde?" - "a Marrocos") e a partir daí agiu como se ele fosse da família. O pior foi quando o puto descobriu que íamos chamar a polícia: até ali tinha estado calmíssimo mas nessa altura armou uma birra de primeira. Acalmou-se logo com uma coca-cola. Nessa altura passou uma senhora que o conhecia e que telefonou para casa da mãe; daí a bocado chegou a irmã de 16 anos que o tinha largado para ir ter com os amigos. A polícia chegou logo a seguir e ainda os viram a descer a rua: "olha, é outra vez o mesmo".
Quando um puto de 5 anos é perdido regularmente pela irmã e chora ao ouvir falar da polícia há alguma coisa que está errada.

O couscous acabei por comê-lo ali mesmo com os marroquinos e duas senhoras do Mali, muito pretas, muito gordas, com escarificações tradicionais na cara e vestidos de cores berrantes típicos lá da terra.


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