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quinta-feira, julho 17, 2003

Tácticas Predatórias do Mosquito: Estudo Comparativo 


Fui atacado impiedosamente! Os mosquitos parisienses, que pareciam tão pacatos, tão amistosos, tão polidos, tão "madame, monsieur, bonjour, excusez-moi", revelaram-se uns ninjas silenciosos à espera do melhor momento para a emboscada. Estes moustiques são estrategas de primeira água, vê-se bem que beberam do sangue de Napoleão. Empregam uma mistura do blitzkrieg com o cavalo de Tróia. Vão entrando em casa das suas vítimas com meses de antecedência, ganhando a sua confiança, partilhando os seus momentos mais íntimos sem qualquer esboço de agressão. Quando as defesas relaxam e as vítimas já se habituaram a dormir de janelas escancaradas no calor do Verão... zás!! saem de todos os cantos da casa onde estiveram a aguardar com um estoicismo admirável e investem sem misericórdia, saciando a sede de meses numa única orgia sanguinolenta!

Que saudades tenho eu do mosquito tuga, tão honesto, tão conformado. Só faz aquilo que está estipulado no contrato e a mais não é obrigado. Pega no emprego ao pôr do sol e instala-se nas paredes; bem à vista para o patrão perceber que já chegou. Para evitar ataques, basta ter as janelas fechadas a essa hora e fazer uma ronda com o chinelo para esborrachar na parede os poucos que lá andam. Na verdade aí é que reside a fraqueza do mosquito tuga: o velho gosto ibérico pela ostentação, que os portugueses tão bem conservam numa altura em que os traidores espanhóis o começam a pôr de lado. No fundo, o mosquito tuga está-se nas tintas para a colecta de sangue. Aquilo com que o mosquito tuga realmente sonha é deixar uma bela mancha na parede, que os vizinhos possam admirar. Isto explica um facto que intrigou os cientistas durante anos: nas raras ocasiões em que o mosquito tuga consegue uma barrigada de sangue, em vez de dar o pira imediatamente, fica firme no seu posto à espera do despertar da vítima sedenta de vingança. Há lá coisa mais vistosa que acabar numa gloriosa gosma de vermelho e negro carimbada na parede!

A estratégia dos mosquitos de São Paulo é muito original e particularmente eficaz no turista europeu: enquanto o turista está impressionado com os grandes, os pequenos tratam do serviço. Acabadinho de chegar de Lisboa o incauto fica impressionado com a proliferação de melgas - "pernilongos" no dialecto local - e precipitadamente aliviado quando verifica que o pernilongo não é par para a temível melga tuga: fraco, pica pouco e quando pica não comicha. Aquilo de que o incauto não se apercebeu é de que o perigo não aparece aqui na forma habitual. Quando olha para baixo repara que uma nuvem daquelas mosquinhas da fruta minúsculas que havia desprezado - "mosquitos" no dialecto local - está neste momento obstinadamente atracada aos seus dois tornozelos. Não sente nada, mas estranha que mesmo passando a mão os bichos não descolem, graças a umas mandíbulas enganadoramente poderosas. Daí a dez minutos a vítima é capaz de trocar a avó por uma embalagem de Fenistil. Uma embalagem não, um balde.

O mosquito milanês é talvez o mais temível. Os campos de arroz próximos da cidade são um viveiro de ochlerotatus caspius, uns sacaninhas sugadores de sangue que têm a característica de atacar O DIA TODO em vez de esperar pela fresca da noite como os mosquitos de boas famílias. Diga-se antes "umas sacaninhas sugadoras de sangue" porque, tal como no caso do homo sapiens, as fémeas é que sugam o sangue todo, com a desculpa esfarrapada de serem elas a pôr os ovos. Por onde quer que se veja a questão, o mosquito de Milão é um cabrãozinho sem escrúpulos. Não tem respeito por ninguém, despreza as convenções sociais; só lhe interessa sugar o máximo, o mais depressa possível. O mosquito de Milão vota Berlusconi.

Nota: isto não é nenhuma parábola, eu sou um gajo pouco parabólico, é mesmo de mosquitos que estou a falar; para quem esteja interessado em mergulhar no fascinante mundo da Culicidiologia, esperam-no aqui horas e horas de diversão.

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