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quarta-feira, setembro 10, 2003

Das maquinações que inspiram no françouillard a convicção sincera de superioridade 

(uma pequena recolha em 35 minutos de televisão, parte da emissão dos campeonatos do mundo de atletismo, no dia 26 de Agosto)

Não sei se é conspiração do Estado, da Academia Francesa ou do Grande Capital, mas a verdade é que o françouillard não pode deixar de pensar que é o maior quando leva todos os dias com barbaridades como as que se seguem.

O entrevistador da TF1 no estádio de St-Denis tem um inglês correcto, o que a princípio muito me impressionou, lembrando-me da miséria que grassa no jornalismo desportivo da televisão portuguesa. O pior é quando chega a parte de traduzir para francês as respostas dos entrevistados:

1. Com uma atleta americana dos 100 m barreiras
- O que pensa da nova regra das falsas partidas [que fora a causa de expulsão de uma francesa numa eliminatória anterior]
- [a atleta, em inglês] Bom, às vezes talvez seja um pouco cruel porque a adrenalina é muita e pode levar um atleta mais nervoso a antecipar-se involuntariamente ao disparo.
- [tradução] Exactamente como discutia à pouco com o pessoal do estúdio, a atleta considera este novo sistema uma profunda injustiça que leva atletas mal intencionados a forçar a primeira falsa partida de forma a provocar a eliminação, pela segunda falsa partida, de adversários emocionalmente menos estáveis, como aconteceu com a nossa querida compatriota!

2. Com Maurice Green, medalha de ouro nos 400 metros
- [logo a primeira pergunta, antes de dizer boa noite] O que pensa do desempenho dos seus adversários franceses [segundo e quarto lugar]
- Who's that?
- Uhh, zi ozerr rreicérrs [the other racers]
- Oh, right, foram competição dura, são pessoas que dão sempre o máximo de si mesmos e cumpriram o seu dever
- [tradução] Maurice Green pensa que os franceses são atletas fabulosos e sente-se muito orgulhoso de ter a oportunidade de partilhar as pistas com eles


Outros momentos de antologia:

3. Na final dos 1500 metros um francês ficou em segundo, razão suficiente para se esquecerem de sequer mencionar o nome do atleta que ficou em terceiro. Só focaram (por breves instantes) o El Guerrouj, medalha de ouro, porque também fala francês, o que lhe dá direito a algum tempo de antena.

4. Numa das eliminatórias dos 100 metros barreiras, não tiraram por um instante a câmara de cima da francesa. Na altura das apresentações das atletas, em vez de dizerem os nomes das adversárias, como é hábito, focaram-se na demoiselle, sobrepondo as imagens de uma entrevista pré-gravada, em que por sinal só dizia banalidades. Como a francesa acabou em quarto fiquei sem saber quem ficou em segundo e terceiro lugar. A que ficou em primeiro só a conheci porque o nosso amigo a entrevistou. Entrevista essa em que, naturalmente, só se falou da francesa.

5. Os juízes só falavam francês apesar de os atletas não entenderem nada do que se está a passar; na 1a série dos 400 metros do Decatlo o juiz teve de gritar 4 (quatro) vezes "à vos marques" antes que os gajos se apercebessem que estavam a falar com eles.


Começando a enjoar de tanto nacionalismo inflado, resolvi fazer um zapping; caí nas notícias do segundo canal:

6. Porque é que os americanos são todos obesos...
[imagem de arquivo de americano com 250 quilos e boné de baseball a chafurdar num mega-mac super extra com o suplemento de queijo a escorrer-lhe pelas beiças]
...enquanto nós somos tão elegantes?...
[imagem de arquivo de umas babes de sonho a fazer topless em saint-tropez enquanto humedecem a pele com um spray de Evian]
...porque as doses são mais pequenas, sendo que o hamburguer francês tem em média 280 gramas enquanto que o americano tem 340.
[sim, era esta a notícia].

Desliguei a televisão, fui vomitar e peguei num livro dum gajo alemão em versão portuguesa para purificar o organismo. Não me consegui concentrar porque os restos abafados de uma cantiga tenebrosa me atormentavam o espírito, vindos não sei bem de onde: "Allons enfants de la Patrie, Le jour de gloire est arrivé! naaana na na na naana na naaa..."

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