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terça-feira, outubro 07, 2003

Manifesto pela cultura 

Ouvi a Teresa Cremisi* dizer ao Bernard Pivot** que em França se vendem 120 milhões de livros de bolso por ano. Não sendo os livros de bolso particularmente decorativos, ainda que pontualmente práticos para ajustar as pernas de mesas mancas, deduzo que uma boa parte deles seja até mesmo, pasme-se... lida [ooohhh, aaahhh, rumores do público incrédulo que reajusta a posição do fofo nos assentos]. Não sei qual é o número em Portugal, mas suponho que ande bem longe dos 20 milhões que levariam a uma mesma taxa per capita (França tem 60 milhões de habitantes, incluíndo um milhão de portugueses que lêem ainda menos que os portugueses de Portugal).
Porque acho de mau gosto levantar um problema sem sugerir uma solução, aqui começa o manifesto:

Solução Genial e Infalível
- Construa-se uma rede de transportes públicos digna de respeito, que as pessoas possam usar para ir para o emprego sem sentir que são vítimas de uma conspiração cósmica; nada que não se resolva com 30% do PIB durante 10 anos;

- Vendam-se livros a dois euros em quiosques adjacentes às paragens de autocarros e estações de metro;

- Produzam-se esses livros de forma a que não se desfaçam ao fim de 3 dias de leitura, tenham um incidência relativamente baixa de erros ortográficos, não assustem os leitores com papel amarelo e capas que já eram feias nos anos 70 e, se de autores estrangeiros, sejam traduzidos por alguém que entenda o que estava escrito no original;

- Contratem-se modelos de ambos os sexos para fingir que lêem obras de autores de qualidade nos transportes públicos, adicionando assim o pequeno elemento de incentivo sexual.

Projecção de Resultados
Antes:
O Sr. Costa, Tozé, benfiquista, bigodaça, larga a Dona Arminda com a telenovela venezuelana e vai para o escritório da seguradora onde trabalha há 24 anos no seu Volkswagen Golf de 92. Passa 3 horas por dia na IC19, ouve a TSF e por isso considera-se culto, chega cansado ao trabalho e por isso tem de fazer uma pausa para a bica e a Bola ainda antes de começar. Tem baixa produtividade, é infeliz, bate na mulher, já não bate nos filhos porque estão maiores que ele, gostaria de comer a Salette da Contabilidade (que em tempos quis ser cabeleireira mas, tendo descoberto recentemente a sua vocação artística, quer agora entrar na Academia de Estrelas), mas a Salette não deixa porque o bigode pica.

Depois:
Tozé demora 20 minutos a chegar ao emprego num comboio que passa de 2 em 2 minutos e onde tem sempre lugar sentado. Anseia por qualquer coisa para se entreter no caminho, dado que já cortou as unhas este mês (salvo a do mindinho esquerdo, claro está) e o Benfica está tão mal que o médico desaconselhou a leitura da Bola. No quiosque da estação, sente-se tentado pelo último êxito do Cacá Espírito Santo de Noronha Vasconcellos, o qual revela - recorrendo a pequenos sketches caricaturais e enumerações cheias de humor espertalhão - porque é os homens são uns cabrões e as mulheres são caprichosas. Todavia, o agente de vendas, mestrando em Românicas, dissuade-o explicando que aquilo é livro de gaja. O olhar de Tozé perpassa por uma belíssima capa do Chip Kidd, que reconhece de algures. É a edição bilingue em dupla costura do Finnegans Wake que havia visto no dia anterior nas mãos (um pouco abaixo do decote) de uma bomba de silicone consideravelmente mais apetecível que a Salette. Como tem uma nota de 10 euros aproveita e leva as obras completas do Joyce. Fica automaticamente mais inteligente e melhor trabalhador, não tem paciência para falar de bola nem bater na mulher enquanto não tiver esclarecido quem é que usa as calças no casal Bloom. Reflexões sobre a condição humana inspiram-no a partilhar a responsabilidade da gestão do lar, dar a oportunidade à Dona Arminda de estudar, trabalhar e ter o seu próprio círculo de amizades. A sua imaginação floresce e a relação sexual com a Dona Arminda soleva-se das profundezas onde jazia ao abandono. Portugal torna-se um centro de inovação tecnológica mundial, toda a gente paga impostos, os construtores civis e autarcas voltam a ser pobres e honestos, o PIB cresce 12% ao ano e em Outubro de 2023 está recuperado o investimento.

Efeitos perversos
Não há bela sem senão: as rádios perdem audiência, as telenovelas venezuelas definham, o mercado deixa de ser suficiente para os quinze diários desportivos, perdendo riqueza uma das mais criativas fontes da ficção nacional, O Tozé deixa de ter a exclusividade no adultério, as petrolíferas e a indústria automóvel perdem rios de dinheiro, a falta de poluição provoca problemas respiratórios nos lisboetas já dependentes do monóxido de carbono, escroques e vigaristas têm vítimas muito mais despertas e exigentes, o Benfica nunca mais pode contar com uma Operação Coração, o João Baião e o Marco Paulo morrem na desgraça e no anonimato.

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* directora editorial da Gallimard, uma italiana de sangue indiano/inglês/árabe nascida em Alexandria, criada por uma ama grega mas que sempre falou francês em casa

* o senhor cujo retrato pode ser encontrado sob a forma de um retábulo de cuidada feitura, rodeado de velinhas votivas sempre acesas e regularmente renovadas, num canto secreto dos aposentos de Carlos Pinto Coelho; complementa-o um relicário onde este último preserva um fragmento das cuecas sujas do primeiro, surrupiadas do hotel aquando da sua visita a Lisboa

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