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sexta-feira, outubro 24, 2003

O mundo secreto da Gente Feia parisiense 

Passeando num final de tarde em Saint-Germain-des-Près ou na Faubourg Saint-Honoré uma pessoa interroga-se: mas não há gente feia nesta terra? Pois bem, claro que há. Na capital mundial da moda, da beleza, dos maneirismos, do requinte estético e da futilidade, a Gente Feia forma uma comunidade marginalizada, um sub-mundo que se furta com habilidade ao olhar público, na tradição do Corcunda de Notre-Dame (de Paris) e do Fantasma da Ópera (de Paris). Durante o dia não sei onde anda a Gente Feia, provavelmente arrastam-se pela Paris subterrânea. Mas de noite...
Uma destas madrugadas, saindo com os copos da Favela, cruzámos o néon apelativo do clube "Le Memphis", Boulevard de la Bonne Nouvelle. Diziam os rumores que quem aguentasse lá até às 7 da manhã teria direito a croissant e pain au chocolat. Grátis. Essa palavra mágica fez-nos esquecer rapidamente o facto de a entrada ter todo o aspecto de uma boîte de brasileiras em Bragança.
O porteiro, muito feio, parecia reticente em ceder-nos passagem; todavia, um olhar escrutinador às nossas olheiras, t-shirts ensopadas em suor e cabelos desgrenhados por uma noitada frenética deu-lhe a confiança necessária. O décor interior era notavelmente coerente com a entrada, num estilo guiado pela alcatifa vermelha da parede, muito feia. A senhora do bengaleiro, muito feia, lançou-nos um olhar de suspeição, encadeado com uma mirada fulminante ao porteiro, a qual ornamentou semi-cerrando as pálpebras e mostrando os caninos num esgar labial. O porteiro, muito feio, encolheu os ombros reconhecendo que talvez tivesse cometido um erro. Nós seguimos na nossa indiferença etílica, que nos dispusemos a reforçar de imediato. Um barman, muito feio, serviu-nos as bebidas e já com elas em punho sentimos coragem para enfrentar a sala. Voltámos costas ao bar. Seguiu-se o choque. Um DJ muito feio passava música muito feia para uma sala cheia de gente muito feia. Graças ao Tchicky e aos 65 graus com 98% de humidade da Favela, tínhamos conseguido penetrar no secreto refúgio de assembleia nocturna da Gente Feia, cuja existência lendária era há muito disputada pelos estudiosos. É aqui que eles passam as noites longe da ditadura estética das discotecas dos Champs-Elysées.
Sozinho teria passado desapercebido, mas o aspecto do resto do grupo traiu-nos. Uma certa electricidade no ar revelava que havíamos sido desmascarados. Não foi possível aguentar muito mais tempo, a pressão dos olhares de repúdio era demasiada. Acabámos por renunciar aos croissants e abandonar o estabelecimento de barriga vazia.

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