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terça-feira, novembro 04, 2003

Delvoye e a arte do laboriosamente fútil (GNS 3) 

Atlas, Wim Delvoye, 2003
Ao herdeiro milionário Percival Bartlebooth não interessava o dinheiro, o poder, a arte, as mulheres, nem a ciência nem o jogo. Definiu assim o seu projecto de vida: após dez anos (1925-1935) a aprender a técnica da aquarela, Bartlebooth passaria vinte anos (1935-1955) viajando pelo mundo e pintando 500 paisagens de portos de mar num formato uniforme, um a cada quinze dias. Cada uma das aquarelas seria colada a um fino suporte de madeira e recortada num puzzle de 750 peças. Nos vinte anos seguintes (1955-1975), Bartlebooth dedicar-se-ia a reconstituir os puzzles, um a cada quinze dias. Cada aquarela seria então "retexturizada", libertada do suporte de madeira, enviada para o porto onde havia sido pintada 20 anos antes e aí mergulhada numa solução dissolvente de onde sairia apenas a folha original, branca e imaculada.

Wim Delvoye afirma identificar-se com esta personagem da "Vida, Modo de Usar" de Georges Perec. O objectivo de ambos é dispender quantidades desproporcionadas de suor, amor, energia e entusiasmo num trabalho completamente fútil. O que Delvoye não sabe é que nisso andamos nós todos, mas temos de lhe perdoar porque o homem é artista e, como tal, vive desfasado da realidade, em grande libertinagem sexual e delírios ideológicos com a sua trupe de amigos charrados.
Nos últimos anos, Delvoye tem andado a construir cuidadosamente mapas detalhados de terras que não existem. Em "Atlas", a obra exposta na GNS, os contornos de costa, tão realistas quando vistos de perto, revelam com a distância as formas de martelos, clips, cuequinhas fio-dental, telemóveis, selins de bicicleta e ordinarices inomináveis (tal como a que se vai continuar a ver nas moedas de euro enquanto a Noruega não quiser adoptar a moeda única).
Enfim, é a obra de um homem que passou quatro anos a trabalhar intensamente com cientistas e engenheiros para produzir uma máquina que, reproduzindo os processos químicos e mecânicos do aparelho digestivo, come por um lado e defeca pelo outro. A chamada Cloaca. O produto final - de consistência e odor muito convincentes, a acreditar na palavra dos críticos de arte - estava até há pouco tempo disponível comercialmente.

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