<$BlogRSDUrl$>

segunda-feira, novembro 03, 2003

A privação do Shopping  

Nos últimos dez meses, não passei em Centros Comerciais mais que um total acumulado de 70 minutos: 50 minutos a almoçar [flashback: o autor discute com a sua fletemeite se hão-de arrendar mobilado ou não-mobilado; os borborigmos são silenciados por um menu-sandocha que se apresenta como a única opção realista para dois jovens imigrantes ainda em período de adaptação psicológica aos escandalosos preços da metrópole] e 20 minutos a comprar o meu próprio ferro de passar[flashback: o autor solta o seu grito do Ipiranga doméstico, hora de libertação do jugo tirânico do ferro de passar comunitário, destruidor impiedoso de t-shirts e camisas; para grande desilusão da vendedora, o autor não lhe fica com o número de telefone e ainda por cima leva o modelo mais barato; o autor não se arrepende de levar o modelo mais barato].
Esta abstinência não foi compensada pela frequência dos grandes armazéns e cinemas multiplex parisienses, ou a grande maravilha urbanística que são as galerias subterrâneas dos Halles, que poderia ter minimizado o choque. As consequências não se fizeram esperar: decréscimo acentuado de tolerância a multidões de olhos bem abertos, raiados de sangue, inebriadas pelo delírio consumista; fobia a grandes espaços fechados; perda de apetite perante a visão de esplanadas instaladas num corredor; hipersensibilidade a anúncios de meninos perdidos e carros mal estacionados, podendo levar a reacções imprevisíveis se precedidos das três notas arpejadas de um acorde perfeito maior, independentemente da ordem; alergia psicossomática a pipocas (isto é, os sintomas da alergia manisfestam-se dispensando a ingestão do produto, basta a invocação do conceito "pipoca" na mente do indivíduo, principalmente se associado a meios de entretenimento audio-visual); desorientação em estacionamentos subterrâneos; um perigoso sentimento generalizado de bem-estar e descontracção ao fim de semana.
A reintegração na sociedade lisboeta será dolorosa, passo a passo, começando com aqueles centros pequeninos dos finais de setenta, o Roma ou o Arco-Iris... talvez ao fim de 6 meses esteja pronto para voltar a enfrentar as 427 lojas do Colombo (dia temido).

This page is powered by Blogger. Isn't yours?