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quarta-feira, dezembro 10, 2003

A Vida no Estaleiro  

Fui ao teatro com uma francesa. A rapariga escolheu uma comédia ligeira de humor fácil para não exigir muito do meu grosseiro cérebro de português. É um erro comum: os nativos têm dificuldade em interiorizar que a linguagem de Jean Genet ou Molière é mais acessível a um estrangeiro que aprendeu pelos livros do que qualquer trocadilho vulgar. Fomos então ver a campeã das bilheteiras "La Vie de Chantier" — "A Vida de Canteiro", em português de Champigny — com Dany Boon, vedeta da comédia local que me pareceu uma versão baguete com bons modos do Lee Evans, tiques, orelhas e tudo.
Estava à espera de não perceber metade das piadas e não percebi mesmo, mas a peça acabou por revelar um conteúdo de profundo interesse sociológico. Como não podia deixar de ser, tendo em conta o tema da peça (respeitável família francesa cai numa espiral de caos e destruição quando tenta fazer obras em casa), há um português metido ao barulho: Pedro Pinto, pedreiro-canalizador de 50 anos, a caricatura do português que quase todo o parisiense tem na cabeça mas não tem a coragem de pôr na língua. Quero dizer, muitas vezes até tem.
Foi um deleite. Ora o Pedro Pinto era néscio, era preguiçoso, era ignorante, era ineficiente, tinha pobres maneiras, era peludo e cheirava mal. As suas únicas qualidades positivas era um carácter dócil (como os cães) e a honestidade, mas mesmo esta derivava de um intelecto débil que o incapacitava de manipular as situações em proveito próprio. A senhora da casa tem um colapso quando a filha, vítima de uma electrocução que lhe afecta seriamente o sistema nervoso central, se apaixona pelo "portos" (lê-se "pòrrtôz").
De alguma forma refrescante é o facto de a caricatura não ser baseada numa ignorância completa, como é costume entre os anglófonos; aqui o Português não falava espanhol nem dava beijinhos na boca de outros homens.
O actor que encarnava a personagem de Pedro Pinto dá pelo nome pouco luso de Zinedine Soualem, mas por aí eu não pego, o senhor fez muito bem o sotaque e tinha mais cara de tuga que eu.

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