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terça-feira, janeiro 13, 2004

Redacção: As minhas férias 

Para as férias de Natal, fui ao Portugal, que é a terra da minha mãe. Não me lembro muito bem das férias porque me embebedei todas as noites. Lá nos países subdesenvolvidos do Sul é assim. Foi muito drôle, porque já não via os outros meninos portugueses depois onze meses. Houve uns que eu nem mesmo tive pá tempo de ver porque estavam a prestar declarações ao diápe. Vi o telejornal muitas vezes porque o meu pai diz que é importante estar informado, mas não percebo porque é que é preciso vê-lo várias vezes, eles continuam a repetir todos os dias o mesmo episódio que estava a dar quando me fui embora. Mais valia fazerem só um para o ano todo, podia ser o Herman a apresentar no réveillon.

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"Ora as notícias para 2003 são:

NACIONAL
- pedofilia na Casa Pia;
- incêndios no Verão porque faz muito calor, muito vento e chove pouco;
- o caso Moderna ainda não está resolvido;
- 47 [crianças/velhos] [doentes/deficientes] vivem em casas degradadas e recebem pensões miseráveis;
- 16 criancinhas tiveram meningite, causando o encerramento temporário de 16 [escolas primárias/jardins de infância] e a inquietação de 16 associações de pais;
- 359 velhotes foram enganados por burlões do euro (uma descida drástica face aos 872 do ano passado);
- continuam a morrer 3 pessoas por dia nas estradas portuguesas devido ao álcool e excesso de velocidade, mas a verdadeira razão é a falta de civismo dos condutores, a falta de sinalização e mau estado das estradas;
- o comércio no [Natal/Páscoa/Dia dos Namorados/Dia da Mãe/Dia de Reis] esteve pior que o ano passado;
- Portugal apareceu na cauda da Europa em 38 estatísticas sortidas;
- [bolo-rei/folar/pastéis de tentúgal/pastéis de belém] continuam a ter a mesma receita tradicional que é apresentada todos os anos, salvo o pequeno segredo familiar passado de geração em geração que todas as casas guardam cuidadosamente, o que não impede que o sabor seja o mesmo em todo o lado;
- A GNR apreendeu 1200 kg de haxixe, 200 kg de heroína, 150 kg de cocaína, 137 caçadeiras de canos serrados, 27 pistolas, 67000 euros em notas falsas, 457 telemóveis e 3 vibradores.

INTERNACIONAL
- há guerra no Iraque e os americanos têm medo dos terroristas;
- 423 fait-divers perfeitamente anódinos ocorreram nos Estados Unidos (o que lhes dá legitimidade), entre perseguições de carro à velocidade vertiginosa de 130 km/h, animais que fazem surf ou andam de mota, gente que é muito gorda, gajos que andaram aos tiros, meia dúzia de pessoas que morreram com [tornados/tremores de terra/enxorradas];
- 1372 substâncias foram proibidas pela FDA mas continuam a ser legais na Europa, motivando 1372 vezes o alarme dos media e das populações;
- o Pai Natal continua a morar na Lapónia e a receber milhares de cartas de crianças de todo o Mundo.

Agora toca a contar as passas que vem aí 2004!!!"
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De volta a Lisboa, constatei que, tirando os dois estádios novos na segunda circular, estava tudo igual ao que eu deixei só que um bocado pior e mais estragado. Fez-me lembrar a Eurodisney que, à parte o Indiana Jones e a Space Mountain, está na mesma há dez anos, mas cada vez mais velha. Fiquei contente porque o estádio do Sporting não é assim tão feio (admito que estava a contar com o pior) e o do Benfica é perfeitamente horrível. Comi muito bem e muito barato e também comi mal e barato e até comi mal e caro, quase me sentia no Quartier Latin. A noite do Bairro está muito melhor, a Kapital está toda estragada com aquela mariquice de sofás no andar de cima, o People é só putos, o BBC só cotas e o Lux estava às moscas mas passou uma música da Favela Chic, o ponto mais alto de toda a estadia. Quer dizer, o ponto mais alto de toda a estadia, literalmente, foi o terraço no topo da Torre Vasco da Gama, pico até aí inexplorado que atingi às três da manhã de dia 1. Depois de comer as doze passas no rés-do-chão, fui parar inexplicavelmente às escadas de incêndio e subi aquilo tudo com o João e o Pedro, dois cavalheiros que eu não conhecia de lado nenhum. Os meus camaradas, menos atléticos e mais embriagados, acabaram por ficar para trás e deixar-se apanhar pelos seguranças a escassos metros da meta. Estes, satisfeitos com as presas, ignoraram um terceiro aventureiro (cuja costela brasileira o havia dotado de um motor alimentado a álcool) que saltava degraus de três em três em direcção à Glória. Lá em cima a vista era sublime e o vento impiedoso, maximizando o carácter heróico da cena. Na descida tropecei num empregado de mesa que despejava o lixo, disse-me educadamente que eu não podia descer pelas escadas de segurança e fui obrigado a entrar no restaurante panorâmico onde decorria a festa VIP. Apavorado com a saloice do jet-set português dirigi-me com presteza para o elevador, desculpando-me com o pretexto ir lá abaixo espreitar o povo. Depois de ver o Benfica-Sporting, único jogo que vi este ano (e muito bem escolhido), voltei para a Fránça de avião. Como tinha mudado o vôo da Air Luxor para a Air France, não tenho peripécias para contar.

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